domingo, 4 de março de 2012


Suas mãos deslizavam pelas minhas costas me fazendo tremer, sentir coisas que nunca tinha sentido antes. Queria pedir que você parasse. Queria pedir que nunca acabasse. Desenhava em minha pele com destreza; as perguntas e a insegurança cresciam, fechava os olhos e tentava respirar direito, não enlouquecer. Estavas a me seduzir? Queria me ver enlouquecer? Ou somente fazia gestos de fraternidade? Cada segundo ali sentindo seus toques e sua voz me matavam. Até que a verdade fora revelada. Minhas perguntas estavam certas. Meu suor não era em vão. Acredito ter parado de respirar algumas vezes. Você me queria do mesmo jeito que eu a desejava naquele momento visceral. Duas amigas. Se desejando. A infância quebrada pela curiosidade maestrada por pecados. Pecados tão deliciosos e nunca aceitos pelo céu.

A via contemplar os detalhes que havia naquela tarde cinzenta onde ecoava murmúrios e os tilintar de talheres e xícaras naquela cafeteria; algumas vezes conseguia captar o que seus olhos apreciavam, mas na maioria do tempo, só podia contemplá-los. Eram olhos sonhadores, ágeis, apaixonados por detalhes onde acredita ter afeição. Carregava em seus lábios o velho sorriso melancólico que enganava a muitos ao dizer que estava bem e em seus longos e finos dedos de artista, um cigarro, o alimentador do fogo de suas agonias. Ainda me lembro do choque que tive ao vê-la com um cigarro em suas delicadas mãos, ao notar que ela não era uma fada que veio encantar a minha vida mas sim uma garota, tão frágil quanto eu. — Sabe.. Algumas vezes o amor é que nem um inseto. Já percebeu? — A olhei não compreendendo aonde ela queria chegar (como sempre). — N.. Não. — Ela soltou um ruído como a de uma criança que ainda esperava mais palavras virem do meu ser. Não estava mais olhando para o local em si, mas para meu rosto, temia seus ágeis pensamentos. Engoli seco molhando os lábios criando coragem para ouvi-la, ouvir mais palavras eloquentes que no fundo, sabia que eram verdades. Verdades que poderiam ser escritas em um livro que poucos poderiam ler, pois os tolos que o lessem não a compreenderiam e a colocariam ao lado de Lispector. Onde as palavras parecem belas, mas não enchem a alma deles. — Por que essa analogia? — Vi um sorriso maroto ser formado por alguns segundos em seus lábios, os quais entraram em contato mais uma vez com o cigarro, tragando, ficou alguns minutos depois apreciando a fumaça que ela mesma soltara. — Vemos o inseto de longe, ele nos incomoda. Sabemos direitinho o que fazer quando chegar perto, como imaginamos que vão chegar e como poderemos matar. Mas na hora, eles chegam rápido demais, estão em nossos rostos.. Entramos em pânico esquecendo-se do plano e quando vemos, estamos batendo em nós mesmos.